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software livre como editor de texto faz diferença na sua escrita?

( Artigo de Sávio L. Lopes, integrante do labE Cyberquilombo 1, pesquisador na área de comunicação e poder)

Comunicação, software livre e liberdade. Um dos temas que mais tem me interessado atualmente, além de ser minha área de pesquisa, é o da comunicação. No vasto universo das teorias da comunicação, há uma nobre desconhecida. É a teoria das materialidades da comunicação.

O que essa teoria tem a nos oferecer? Erick Felinto, em um livrinho chamado “Passeando no labirinto: ensaios sobre as tecnologias e as materialidades da comunicação”, definiu assim: “podem ser entendidas como uma tentativa de inserção decidida e metódica do corpo e da matéria no âmbito dos estudos culturais. Seu método de trabalho é eminentemente descritivo e não interpretativo; seu foco são os meios e as instituições que deles fazem uso; seu campo é a materialidade histórica da época em pauta (sempre percebida a partir do prisma de seus discursos e tecnologias dominantes).”

Em primeiro lugar, a teoria das materialidades da comunicação tenta se inserir no campo dos estudos culturais. Em segundo, o seu método, enquanto teoria, tem foco na descrição do fenômeno comunicacional, e não na produção de uma interpretação, ou de sentido. Em último lugar, entendemos que tanto meios (de comunicação, por exemplo, aparatos tecnológicos) quanto instituições (que não são físicas, pense na instituição “Estado” e não no prédio que abriga os servidores do Estado) possuem materialidade.

Uma questão que surge quando citamos as materialidades da comunicação é: Será que os equipamentos que utilizamos, e para ser mais exato; os meios e instituições; nos influenciam, ou ainda, nos moldam de alguma maneira?

Para tentar responder essa questão, vamos recorrer à uma história contada por Martin Stingelin. Segundo ele, o filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, recebeu de presente uma de suas primeiras máquinas de escrever, chamada esfera de tipos, que era desenvolvida para pessoas com deficiência visual, o que em 1882, se aproximava da situação do filósofo alemão, já que estava cada vez com mais dificuldade de escrever à mão, justamente por dificuldades de enxergar.

Perguntado via carta por Stingelin sobre a influência deste novo tipo de máquina em suas elaborações frasais e conceituais, Nietzsche responde: “Você está certo – nossos instrumentos de escrita funcionam lado a lado com nossos pensamentos”. Segundo a perspectiva adotada por Stingelin, os meios que utilizamos moldam, ou pelo menos nos influenciam em alguma medida. Guardem essa resposta de Nietzsche na gaveta e vamos adicionar mais um integrante em nossa viagem.

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Figura 1: Friedrich Nietzsche

Apresento-lhes Marshall McLuhan, o filósofo canadense e autor do livro “Os meios de comunicação como extensões do homem”. Um de seus capítulos, possui o curioso título: “O meio é a mensagem”. É evidente que não nos cabe nesse pequeno texto, travar a discussão sobre o que são meios, já que o assunto é extenso e pode ser aprofundado a partir das sugestões de leitura que constam ao final desse texto.

Nas palavras do próprio McLuhan: “Primeiro moldamos nossas ferramentas, depois elas nos moldam.” Ou seja, as coisas, meios, instituições, que utilizamos, ou que projetamos, fabricamos e moldamos, também nos moldam. Tirem da gaveta a história de Nietzsche. Assim, passamos à seguinte conclusão: Se os meios que utilizamos (como a máquina de escrever de Nietzsche), trabalham junto com a gente, se eles não são neutros, (Como afirma McLuhan, que o meio é a mensagem) ou seja, possuem um lógica inscrita, usar um determinado tipo de equipamento em detrimento de outro, faz toda diferença, certo?

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Figura 2: Marshall McLuhan

E se por equipamentos e ferramentas entendermos inclusive os softwares que utilizamos? Para produzir um texto, por exemplo, utilizo, além do computador, um software de edição de texto. Se minhas ferramentas me moldam, utilizar um determinado tipo de software para produzir um texto, influenciaria minha escrita, enquanto ao utilizar outro tipo de software eu seria influenciado de outra maneira. Para costurar todas essas pontas, vamos adicionar à nossa viagem o último integrante.

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Figura 3: Richard Stallman

Conheçam Richard Stallman, hacker, criador do movimento software livre e fundador do projeto GNU. Mas afinal, qual a relação do software livre com tudo isso? Em primeiro lugar, o que é software livre? “Por “software livre” devemos entender aquele software que respeita a liberdade e senso de comunidade dos usuários. Grosso modo, os usuários possuem a liberdade de executar, copiar, distribuir, estudar, mudar e melhorar o software. Assim sendo, “software livre” é uma questão de liberdade, não de preço.

Para entender o conceito, pense em “liberdade de expressão”, não em “cerveja grátis””. Alguns parágrafos atrás, afirmamos que o meio, e nesse caso específico, o software não é neutro, que o meio é a mensagem e que os meios possuem uma lógica inscrita, lembram? Pois é, na definição de software de livre, está explicitada a lógica inscrita no software livre: liberdade.

Em contraposição ao conceito de software livre, existe o software privativo. Vejamos sua definição: “O software proprietário, privativo ou não livre é um software para computadores que é licenciado com direitos exclusivos para o produtor.[1] Conforme o local de comercialização do software este pode ser abrangido por patentes, direitos de autor assim como limitações para a sua exportação e uso em países terceiros. Seu uso, redistribuição ou modificação é proibido, ou requer que você peça permissão, ou é restrito de tal forma que você não possa efetivamente fazê-lo livremente… [2] A expressão foi criada em oposição ao conceito de software livre”.

Assim como o software livre e qualquer outro meio, o software privativo possui uma lógica inscrita. Utilizando seu conceito como base, podemos afirmar que essa é a lógica inscrita no software privativo: a lógica da restrição, da limitação, da exclusão. Aqui encerramos e deixamos a seguinte questão em aberto: Por qual lógica vocês desejam ser influenciados (para utilizar o termo de Nietzsche)? Por qual tipo de ferramenta, vocês querem ser moldados (para utilizar o termo de McLuhan)?

Quando escreverem um texto, produzirem uma peça gráfica, gravarem um vídeo, compuserem uma música, que lógica estará trabalhando lado a lado com vocês?

Sávio L. Lopes é pesquisador na área de comunicação e poder.

Para saber mais: FELINTO, E. Passeando no labirinto: ensaios sobre as tecnologias e as materialidades da comunicação. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2006.

MCLUHAN, M. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1969.

PROJETO GNU. O que é o software livre?