Museus e gênero

artigo de Paola Maués, integrante da formação livre  “Mulheres na Política”

Os museus, em sua maioria ( e desde sua ‘invenção’) são espaços de poder a serviço do patriarcado. Muito já foi dito sobre os museus como locais de celebração da memória do poder, que representam determinados interesses políticos de indivíduos e/ou grupos sociais, étnicos, religiosos ou econômicos privilegiados. Configuram-se, na maioria das vezes, como espaços pouco democráticos, onde prevalece o argumento da autoridade.

Não é à toa que muitos museus estão sediados em edifícios que um dia estiveram ligados a instâncias que se identificam ou se nomeiam como sedes do poder, ou residência de homens poderosos – historicamente são as memórias masculinas que estão associadas ao poder.

O que prepondera são coleções personalistas, etnocêntricas e androcentristas, tratadas como se fossem a expressão da totalidade das coisas e dos seres, como se pudessem expressar o real em toda a sua complexidade. Estes esquemas simplistas e universalizantes banem o conflito através da ‘aura’, de conceitos puristas de autenticidade e excludência. Museus geram e reproduzem hierarquias, relações de dominação e desigualdade sociais.

O museu é um campo onde se articulam dois movimentos da memória: um que se dirige ao passado e lá se cristaliza, como lembrança reificada e saturada de si mesma sem possibilidade de criação e inovação.; memória não questionada, tida como verdade absoluta; comemoração da ordem estabelecida e de valores culturais dados e valorados de forma hierárquica; e outro que se orienta para o presente, como uma espécie de contramemória, se articulando com a vida.

A vitória do primeiro sobre o segundo se configura como a perda da utopia, a perda dos sonhos, incredulidade no poder de agir e modificar a ordem estabelecida.

Nada possui valor em si: todos os valores são inventados pelos humanos. os bens culturais são significados e ressignificados de forma interrelacional entre os seres, e entre os seres e as coisas. Neste sentido, o museu deve atuar como agente de problematização da memória e da história, gerando então o conflito para contestar o status quo.

O que frequentemente vemos são coleções associadas ao poder em seus mais variados estratos: poder político, poder religioso, poder militar, poder econômico, sempre relacionadas ao papel socialmente convencionado à figura masculina, como atuante em meios produtivos e de controle da produção. Já as mulheres estão representadas relacionadas a domesticidade, relações de parentesco e maternidade, em museus de traje ou exposições etnográficas com reconstituições dos espaços domésticos. isto ocorre pela vivência do espaço público estar relacionada sempre aos homens, e o espaço privado e doméstico associado às mulheres.

O caminho é através da participação e de ações que traem e subvertem a missão original das instituições – transformar os museus em agências capazes de servir e instrumentalizar indivíduos para uma reflexão critica e modificação de sua realidade.

Se faz necessário a genderização* das discussões museológicas: inclusão dos patrimônios femininos e o seu estudo, reinterpretação dos patrimônios já constituídos e musealizados pelo viés das questões de gênero (e  de poder) e alteração dos discursos expógraficos, abandonando a linguagem neutra.  Para museus mais questionadores e menos impositores de verdades.

A relação de homens e mulheres com o patrimônio e o espaço museal não são iguais, e essas relações se diferem mais ainda quando as cruzamos com outras categorias analíticas promotoras de desigualdade, como: poder, etnia, classe, idade, nível de escolaridade, substrato social e cultural. a história dos museus tem forte ranço de exclusão – dos pobres, de determinadas etnias, religiões, e das mulheres; portanto, o que coletar no presente para lembrar das memórias e identidades excluídas?

O trabalho contemporâneo no museu

Analisando o museu como mercado de trabalho, os homens exercitam o papel de pesquisadores e estudiosos, e mulheres exercem seu papel social convencional de educadoras e cuidadoras.

Como mulher, museóloga e atuante na área de educação em museus, acredito que seja importante questionar: como nós mulheres (visivelmente a maior força de trabalho nos museus atuais em termos numéricos) nos interrogamos e nos relacionamos com as coleções que somente representam o universo masculino, ou foram constituídas por homens?

*Museu genderizado – abandono da valorização da obra-prima, da atração pela catástrofe ou\e pelo grande acontecimento histórico, do avanço cientifico, e das expressões que sugerem uma hierarquia dos patrimônios. expressões estas que contribuem para excluir dos museus as ações banais do cotidiano, os grupos minoritários, a sutileza das mudanças e as múltiplas facetas do real.

You're Seeing Less Than Half The Picture 1989 Guerrilla Girls null Purchased 2003 http://www.tate.org.uk/art/work/P78790
You’re Seeing Less Than Half The Picture 1989 Guerrilla Girls null Purchased 2003 http://www.tate.org.uk/art/work/P78790

“você está vendo menos que a metade da imagem/ sem o olhar das mulheres artistas e artistas de cor”.

Cartaz produzido pelo coletivo feminista Guerrilla Girls. 1989.

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